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O que é o REI DE MACONGE? - Pelo REI DE MACONGE - D. CAIO JÚLIO CÉSAR DA SILVEIRA IV

Quando já residia emRei_Maconge Luanda,em 1969, o Rei de Maconge foi solicitado a evocar a formação do Reino, em texto destinado ao Boletim Cultural da Câmara Municipal de Sá da Bandeira. Não perdendo nunca a perspectiva histórica dos episódios que ele próprio viveu, D. Caio deixa claro que a necessidade de criação do Reino de Maconge se fez sentir como contraponto à actuação dos dirigentes da Academia da Huíla, que progressivamente deixavam morrer o culto das tradições, a praxe e o romantismo, que constituem a matéria prima de Maconge.

 

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Convidado a colaborar neste número especial do Boletim Cultural da Câmara, oferece-se oportunidade, que se não deve rejeitar, para satisfazer a curiosidade de quantos nos perguntam frequentemente: “mas o que é isso do Reino de Maconge?!”

Porque este Boletim é inteiramente dedicado ao cinquentenário da fundação da Escola Primária Superior, parece que convém historiar aos seus antigos estudantes (velhos “republicanos”) nossos antepassados, como se instalou a “monarquia” na Academia por eles criada em 1919.

Ensejo melhor não se depararia para, em ameno prosar, tentar esclarecer os interessados. E vamos a isto, para não provocar prolongamentos desnecessários, que a matéria já estava preparada para um livro de memórias que, um dia, sentirá o calor da luz do sol.

Ora, para se falar na Academia da Huíla do nosso tempo, por legítima associação de ideias, temos necessariamente de recordar aquilo que ficou assinalado na sua história, com a designação de “Reino de Maconge”.

O Reino de Maconge nasceu espontaneamente no seio da grande politiquice académica que então, como de costume, fervilhava por causa das eleições para a presidência da Academia.

Os “veteranos”, os “crónicos” e os praxistas, de uma maneira geral, choramingavam pelos corredores do Liceu que o “nível” da Academia oscilava desanimadoramente; que se iam esquecendo tradições e costumes; que, numa palavra, tudo ameaçava perder-se nas brumas de um Passado glorioso: esperava-se que alguém chamasse a si o heróico empreendimento de fazer reviver todas as praxes; que se encontrasse, enfim, o chefe de uma cruzada que convinha pregar para desvanecer a indiferença e o comodismo gerais.

No desejo veemente de ver concretizados os ideais e as aspirações tão forte e decididamente ventilados, nasceu o “Reino de Maconge” que era, para encurtar razões, o agrupamento, devidamente organizado, dos estudantes dos cursos mais adiantados.

O “movimento revolucionário” que geraria o pronto ressurgimento da Academia, incluía manifestações de todas as naturezas: festas académicas, excursões, desportos, serenatas, praxe… e boémia, tendo sempre por vestimenta a capa e a batina.

Elaborou-se afanosamente a “Constituição Política do Reino de Maconge”; nomearam-se representantes nas principais cidades, (embaixadores, como pomposamente se designavam); elegeram-se os poetas mores (Príncipes da Poesia Macongina) que forjaram “As Macongíadas”; escolheram-se compositores, ensaiaram-se os cantores, elegeram-se músicos oficiais e treinaram-se os atletas.

O rei, por seu turno, dividiu as massas em escalões sociais, conferindo títulos nobiliárquicos a explorar e a chalacear  os “pontos fracos” de cada um. O Gilberto de Oliveira, por exemplo, que tocava violino e tinha a categoiria de compositor e ensaiador oficial, era o responsável Duque das Claves em Ré; o António Duarte Peão Júnior, porque o pai era industrial de calçado, celebrizou-se como o decantado “Bandarra Macongino”; “Magister Equitum Caveirorum”, o inconfundível Artur Teles de Carvalho, magrinho, refilão famoso, agarrado sempre ao seu clássico latim e por aí adiante no mesmo tom.

O Ministério, cheio de prestígio, e o venerando Conselho de Estado, com representantes dos nobres, patrícios e plebeus, ponderavam os destinos do Reino, legislavam e assinavam os decretos semanais.

Tudo se movimentou e accionou como se pretendia, porque breve os rapazes se compenetraram de suas funções… e a boémia ofereceu seu cálido e aliciante seio que gerou os mais excelentes e afamados “chumbos” daquelas gerações.

O breviário, está claro, era o de Coimbra; as bíblias, o “Mata-Carochas”, o “Pad-Zé” e o9 “In Illo Tempore”, de Trindade Coelho.

A “Constituição Polícia”, redigida por uma comissão especialmente nomeada para o efeito, e onde pontificava o 1º ministro Armindo Bentubo de Lima, Barão da Bolsa Vazia, decretou normas e directivas rígidas como um cadáver.

Os saudosos Príncipes da Poesia Macongina, Rui Ferreira Coelho e César Paulo da Silva, “raparam” de seus fecundos bestuntos as imorredoiras “Macongíadas”, a decantar os feitos do Reino.

De notar que, após tantos anos volvidos, o primeiro tem saído sempre laureado de concursos literários que, com a sua presença se têm enriquecido, enquanto que o César Paulo da Silva deixou calar a voz da sua Musa, arrumada que foi a sua lira na velha bagagem das recordações de estudante.

Os mesmos delicados vates pariram também o Hino de Maconge que, como estridentes fanfarras, gritava alegria e juventude.

E ainda da “Beócica Fonte”, ambos “beberam” a célebre “Marcha da Rapazeada”, assim como um hino guerreiro da boémia que, em noite de serenata, atroava os ares quietos da cidade.

Estas ultimas duas peças foram musicadas pelo Gilberto de Oliveira e cantaram-se dezenas de vezes, madrugada alta, com os peitos inchados de amores e o estômago a abarrotar de carrascão e chouriço. Meu Deus, que tragédias naqueles corações e naquelas panças, como diria Eça de Queiroz…

Feita a “revolução”, deposta a “República”, estava implantada a Monarquia na Academia da Huíla.

É altura de recordar alguns dos famosos solistas que cantavam, flagelados pelo ar frio das madrugadas cacimbosas, de almas aquecidas pelas ternuras macias de garrafões esportulados mui dolorosamente por meio de subscrição pública do Reino ou, com suavidade, arrancados às adegas de estabelecimentos comerciais que aderiam sempre.

O Fernando Hermenegildo, Lino F. Nóbrega, o António Armada Lopes Martins, Joaquim Lopes do Rosário, José Costa Afonso, Emílio Leite Velho, José Maria Correia, são nomes que se alinham entre aqueles cujas vozes românticas tantas vezes e tantas noites embalaram o velho Lubango, adormecido na santa quietude dos seus hábitos burgueses. Janelas que se entreabriam num discretear de suspiros bonançosos; cortinas subtilmente afastadas e um volver rápido de olhos adocicados; reboliço no colégio “Paula Frassinetti”…

Essas vozes moças abriram corações e neles, em todos, deixaram depositado o perfume da saudade que hoje nos consome, na invocação desse arrastar, a desoras, pelas janelas (e pelas portas) das raparigas mais lindas dessa época que, se não está muito afastada no tempo, distanciou-se e perdeu-se contudo no vaivém das vagas alterosas da Vida.

E o Amadeu Ferrão de Paiva, empregado da mercearia do “velho Venâncio”, que colaborava sempre com uma dúzia de metros de linguiça que a gente pedia para reclame?!...

 

O Scott, avantajada figura de estudante, esse cuidava de comprar 0$50 de “pó de talco em pó” (como ele pedia ao sr. Duarte da Farmácia Central, do Velho Victória Pereira) para o licorzinho de aniz que se fabricava e destilava em meia dúzia de horas, no seu quarto de estudante. .

Como não havia lá muitos escrúpulos nas destilações, o licor era uma saborosa amálgama de pó de talco, de aniz e de álcool puro. Bem, a receita era do Júlio Victória Pereira, a rapidez do Scott, a “sede” de todos os que, mesmo assim, o saboreavam, num ápice, tantas vezes acompanhando uma enternecedora omeleta de ovos subtraídos a deliciosas e populosas capoeiras!

Ah que licor e que malta!...

O Pedro Costa, outro bom “colaborador” da Academia e do Reino, “pronunciava-se” de outro modo: sábado à tarde, no seu apartamento, juntava-se meia dúzia que “suecava” e bebia com “regra”.

A regra era esta: corte de bisca ou de ás, zás, um copázio virado com uns centímetros de linguiça. Se a “partida” tinha início às 2 horas, às 5 já as “renúncias” se atropelavam no engodo de mais um decilitro e de mais umas salsichas, das tais que o Amadeu, aos metros, fornecia para amostra. Às 6 da tarde, mas mesmo às 18, com uma pontualidade que nem os estômagos nem os olhos se compadeciam com uma fracção de segundo, lanchava-se.

Arredavam-se os baralhos ensebados arregaçavam-se as mangas e fervia então uma actividade espantosa, traduzida num afã que nunca parava, do quarto para a cozinha e da cozinha para a mesa.

Às 7 atingia-se o auge da euforia e o plano de uma serenata desenhava-se nos espíritos “esclarecidos” da malta. Sim, porque “aquilo” acabava sempre numa serenata não oficial, em que se gemia mais do que se cantava.

O Artur Alves, da loja dos ”Irmãos Acácios”, também nunca recusou os seus préstimos. Avançava com uns inestimáveis torresmos que, com pão da mercearia vizinha e “vinho da casa” faziam as delícias de saudosas tertúlias que consistiam em lanchar “realmente”.

O Abel (um dos irmãos Acácios), no seu tasco, junto à cadeia Comarcã, era outro amigo extremoso da Academia que colaborava e nos facilitava a existência.

E o Palhota, na “Rotunda” que, sempre na posição de credor, nos impingia um carrascão intragável que mereceu uma frase, em “latão”, qual símbolo da “excelência” do “tintol” que ingeríamos: “vinharum Palhutorum malum fecisset”?!

O Frazão – “Zizi” – mestre em viola, com o Almeida, barbeiro, “virtuose” em bandolim, mais o Rocha, que improvisava um incrível acompanhamento de colheres de sopa, à laia de “jazz”, constituíam um “conjunto musical” que abrilhantava sempre as célebres “lapinhas” do velho Manuel Joaquim.

Mas a vida académica completava-se cultivando o gosto pela literatura, pelas artes, pela filosofia, enfim, por tudo quanto pudesse despertar a nossa curiosidade e a sede de saber para copiar os boémios célebres de Coimbra, que também procediam assim.

Tínhamos verdadeiras tertúlias, hoje no quarto de um, amanhã no de outro; quantas vezes reunimos para debater e para discutir o último livro lido ou qualquer outro assunto que caísse sob a nossa atenção.

O Eça deleitava-nos, Guerra Junqueiro entusiasmava-nos, Pittigrilli espevitava-nos a curiosidade, Nietzche confundia-nos, Darwin magoava-nos, Einstein esmagava-nos, Freud apaixonava-nos.

Em tardes de calorosas discussões, burilando frases de fino recorte literário, exercitando a agilidade em esgrimir argumentos e de requintar a eloquência, passavam-se horas deliciosas… Cada qual produzia a sua crítica, defendia o seu ponto de vista, e o debate prosseguia animoso e ruidoso na discordância que opunha, frente a frente, fortes antagonismos, quantas vezes mera atitude literária para provocar polémica acesa e renhida.

A poesia atraía-nos. Decoravam-se os poetas mais sensacionais (José Duro, Gomes Leal, G. Junqueiro, Antero de Quental, Soares de Passos, António Nobre, Camões e tantos outros)! Horas de declamações vibrantes aqueciam-nos a alma onde sempre um amor secreto segredava endeixas!...

E uma eloquência estudada e rebuscada, fomentava e cultivava aquilo que se pretendia para deslumbrar os “futricas”, - o dom da palavra! Assim empolgaríamos os circunstantes dos baptizados e dos casamentos para que éramos sistematicamente convidados com o objectivo de os “animar” e de felicitar, em tiradas quentes de oratória académica, os pais ou os noivos, conforme as conveniências.

Depois declamava-se poesia idílica e amorosa, adaptada ao momento. Caramba, nunca falhávamos!

Como era bom, em tarde de quieta fisionomia, de discreta amenidade (como aquelas das vésperas dos feriados), saborear, em cavaqueira descuidosa, a companhia de colegas queridos!

Como era adorável liquidar as horas, uma a uma, com a discussão acesa de um tema qualquer, com a invocação de um episódio jocoso das aulas, com a lembrança de um “estenderete”!

Ó dolce farniente” de vesperais sornas, agonizando lentamente…

Fumando, “suecando”, chalaceando; hoje no quarto do M. da Silva Andrade, depois no meu; como calhava, galhofando, cabulando, doidejando. E o espírito, ajaezado ao conformismo daquelas horas simples, liberto de convencionalismos e de formalismos, adejava pelas alturas das fantasias enganadoras, próprias da idade; esgueirava-se subtil, leve, decidido, para pairar, ousado, por vergéis que não podiam ser seus, mas que sabia arrebatar, então com a galhardia e a audácia dos verdes anos!

… e os minutos corriam deliciosa e vertiginosamente; as horas passavam velozes; os meses arregaçavam as mangas aos anos e destruíam, destruíam, iconoclastas, os templos tão carinhosamente erguidos sobre os fumos volúveis dos sonhos fáceis e efémeros!...

A realidade de hoje torna prosaicos os espíritos românticos e inquietos de então; despe despundonoradas fantasias; ensina hirta, a natureza dura e álgida da luta pela vida, luta sem tréguas e sem quartel. Desvanece idealismos pueris; impor razões de outra ordem mais objectiva. E sem devaneios aponta, severa, deveres a respeitar, destinos novos a cumprir.

Apenas a Saudade ficou!

Só, entristecida, envolvida num tropel de recordações que ora se avivam ou esmorecem, que ora vibram ou aquietam ditirambos ou segredam alegrias enganosas…

Caro leitor:
Era isto, mais ou menos, o Reino de Maconge!

E… bem, “adiente” como dizia o Artur Paulino, o “farrapeiro”, figura típica de antanho, carpinteiro que, no nosso tempo, se celebrizou muito mais pela boémia do que, propriamente, pelo seu mister.

 

Luanda, Junho de 1969

César da Silveira

Rei de Maconge

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O que é MACONGE ?  - Por D. Henrique Vieira (Higino II)

Henrique "Higino" Vieira

D. Henrique Eduardo Vieira (Higino II) Conde do Tchioco - Soba de Faro, foi Presidente da Academia da Huíla num período marcante da sua História.
Estudioso de Maconge e do Liceu Diogo Cão, D. Henrique Vieira tem colaborado em livros e revistas com textos sobre o Liceu e sobre o Reino de Maconge
, fruto de laboriosas pesquisas, mas também da sua vivência pessoal.

Ao lado, complementando-se em alguns aspectos, dois desses trabalhos publicados


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"O Reino de Maconge formou-se em 1939, quando os «veteranos» do Liceu Nacional de Diogo Cão, na cidade de Sá da Bandeira, Angola, não aceitaram que o recém-eleito presidente da Academia, fosse um dos «fracos», ou seja, daqueles estudantes que davam mais atenção às modas do tempo do que às tradições e praxes da Academia, tradições essas que vinham desde a fundação da Escola Primária Superior do distrito da Huíla, em 1919, transformada, dez anos volvidos, em Liceu Nacional de Diogo Cão."

 

Começa assim um texto de D. Henrique Vieira publicado no primeiro volume do álbum "Recordar Angola" do jornalista Paulo Salvador, e que pode ser lido aqui na íntegra:

 

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[Clicar na imagem para ver o texto completo]


 

Em 2003 a Dra. Sara Marques Pereira fez publicar pelas Edições "Livros Horizonte" um interessante estudo intitulado "Memórias do Liceu Português". A docente solicitou a Sua Majestade o II Vice-Rei D. Olavo I, uma resenha histórica do Liceu Nacional de Diogo Cão, sem dúvida um dos principais estabelecimentos de ensino no período colonial. D. Olavo endossou a tarefa ao Conde do Chioco, que na sua qualidade de antigo Presidente da Academia da Huíla e, sobretudo, como estudioso da matéria escreveu uma resenha histórica, incidindo um dos focos, como não podia deixar de ser, no Reino de Maconge, a sua criação e a sua evolução.

Em complemento ao texto anterior, D. Henrique Vieira torna este mais abrangente, nomeadamente referindo a Era Europeia de Maconge, a era da actualidade.

A implantação no Ultramar Europeu é assim descrita:

"A dinâmica académica, após a "descolonização", não se perdeu e a Real República de Maconge e os seus ideais de Sonho, Lenda e Fantasia, onde se cultiva a Amizade, a Solidariedade e a Fraternidade, continuam vivos. O Rei "ausentou -se para parte incerta" (porque em Maconge não se morre) em Abril de 1977; D. Mário Saraiva de Oliveira, não aceitou ser promovido a Rei - nas Cortes Gerais do Reino de Maconge, realizadas, em Coimbra, a 28 de Maio de 1978 -, governando o Reino com o título de Vice-Rei. Em Janeiro de 1998, o Vice-Rei visitou a sede do Reino, no Lubango (antiga Sá da Bandeira), e aí foram criados os mecanismos que possibilitaram a construção dos Reais Paços de Maconge, solenemente inaugurados em Janeiro de 2003. Estando D. Mário "ausente em parte incerta" desde Março de 1998, passou a exercer as funções de II Vice-Rei, desde Setembro desse ano, D. Olavo Godinho, aluno do liceu nos anos de 1944 a 53".(...)

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A Era Europeia de MACONGE - Por D. Mário Saraiva de Oliveira I

D_Mario_smallQuando o Rei D. Caio Júlio César da Silveira IV se ausentou para parte incerta, o seu sucessor ao leme de Maconge, foi D. Mário Saraiva de Oliveira. E foi por sua própria iniciativa e proposta, que o trono seria ocupado para sempre por um Vice-Rei. D. Mário foi o primeiro. E foi nos seus ombros que recaiu a ingrata missão de prolongar Maconge para o espaço europeu.
Assim descreveu D. Mário a odisseia de 1975:


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Longos anos passaram sobre a violenta convulsão que, de re­pente, provocou o maior fenómeno de todos os tempos, transfor­mando africanos em europeus. Com esta simplicidade! Com a mesma facilidade com que, de um dia para o outro, se construiu a ponte

"25 de Abril"!... Com o mesmo à vontade com que se come um cozido à portuguesa!

Entretanto...

Quantos sobressaltos, quanta amargura, quanta angústia, quanta dor, quantas lágrimas e quanto sangue?

Quanto fazer e desfazer? Quantos casais destroçados? Quantos filhos sem pai ou mãe? Quantas tromboses?

Quantos enfartes? Quantas úlceras?

De toda esta catástrofe, com todas as implicações que lhe estão adjacentes, que mais "ingredientes", para consignar na factura, que está longe, muito longe, de ser paga?

Do soçobrar de tantas ilusões, do naufrágio de tantas esperanças, da hecatombe de tantos anseios,

de toda esta intempérie, que reduz a mísero boneco de crianças o próprio gigante Adamastor.

Com revigorada energia, com redobrada força, caldeado em campos de refugiados, fundido nos hoteis e pensões, adubado por sangue e lágrimas, renasce o REINO DE MACONGE "Europeu"! Mas europeu, porque implantado fisicamente com a nossa presença na Europa.

Porque, de resto, sem fronteiras, feito de lenda e fantasia, mantém o mesmo Espírito e a mesma Alma universal!

 

E com suas armas apenas, vem sobrevivendo sem a amplitude que os horizontes africanos permitiam, na largura e extensão dos seus Ducados, tão somente espartilhado na estreiteza dos seus sobados. Todavia, com coração e alma grandes, na generosidade da sua própria essência, com perene juventude de espírito.

As sociedades e as civilizações sofreram naturais evoluções que as modificaram e talharam. Umas sobreviveram, outras desapareceram.

Na era europeia do Reino de Maconge, houve a natural modi­ficação da transplantação de África para a Europa. Com as mazelas inerentes, que deixam cicatrizes no corpo.

Mas quem pode ferir o Espírito? Esse aí está, "cantando com vontade de chorar"... , mas cantando sempre, quer as lembranças dos mutiatis e das mulembas, quer as cerejeiras e as amendoeiras! Que é como quem diz o merengue e o vira...

Com a humildade de quem ficou órfão de mãe. Com a virilidade de quem nasceu Eterno.

Enquanto existir Solidariedade, Fraternidade e Amizade, que são os esteios do HOMEM e o alimento indispensável do REINO, este caminhará sobre todas as procelas, fazendo novos Maconginos, porque consigo transporta AMOR.

Até à Eternidade... mesmo que para outras galáxias!

D. MÁRIO SARAIVA DE OLIVEIRA

 I Vice-Rei de Maconge

e Grão-Duque do Lubango

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E agora, MACONGINOS? - Por D. Rui Rodrigues Costa

D_RodriguesCostaO Duque de Gargântua, D. Rui Rodrigues Costa foi um dos principais protagonistas da transposição para a Europa dos destinos de Maconge. E, nos primeiros anos da Era Europeia de Maconge, foi ele, sem dúvida, um dos mais esforçados maconginos. Foi ele quem, nessa altura conturbada, lançou o repto:
"E agora, MACONGINOS?":


 

 

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O conturbado período que se seguiu ao vinte cinco barra quatro teria naturalmente de marcar - e de que maneira - o nosso Reino. Afastados, geograficamente, das raízes, dispersos os seus membros, impossibilitados de contactos os nobres, traumatizados os plebeus, houve que fazer emergir os entusiasmos.

1976 surgiu com alguma esperança e algumas reuniões se fizeram.

A primeira contou com a presença do Rei e teve lugar no Pai do Vento, num pequenino restaurante cuja capacidade não excedia quinze lugares. Depois surgiu a mudança para a cave, mas à terceira ceia o vizinho do 5° andar chamou a Polícia para travar o entusiasmo e as cantorias. Penoso foi depois o caminho que tivemos de percorrer. A grande cidade não estava habituada a ruidosas manifestações de estúrdia; os restaurantes não garantiam a privacidade; as pessoas desconfiavam, em tempos de alta política, dum grupo que bebia alguns (poucos) copos e cantava saudades! Passámos pelo Cabacinha e pelo seu rigoroso quarto de churrasco. Montámos arraial no Kibom e entre algumas chinesices conseguimos criar um grande movimento de solidariedade, perfeitamente à altura das tradições do Reino. Em época difícil, dramática, o Reino desempenhou um papel importante. O somatório de invisíveis - que sempre constituiu a sua grande riqueza - foi posto à prova. O emprego aqui, a "cunha" ali, o empurrão acolá, tudo serviu para a integração da velha "malta".

As distâncias foram-se encurtando, os entusiasmos foram crescendo, as saudades foram-se avivando cada vez mais, e, um pouco por todo o lado, as confraternizações se foram fazendo, estreitando-se abraços, afogando-se a saudade em doces enlevos. Porto, Coimbra, Aveiro, Torres Vedras, Setúbal, Sines, Santo André, Lisboa, constituiram jornadas importantes. Quem não recorda aquela grande confraternização prevista para 150 pessoas, em Alcântara, a rebentar pelas costuras quando apare­ceram mais de 900 maconginos? E se o caldo verde não chegou para todos, poucos foram os que não beberam os seus copos e mandaram a caldeirada às urtigas. O D. Olavo, organizador, entrou no Guiness do Reino! Quem lhe negou os méritos da multiplicação dos pães? E em toda a parte o Reino foi acolhendo a saudade. Se alguns pouco sabiam de Maconge nem por isso deixaram de lhe emprestar a sua presença, como se ele fosse o barco providencial que surgia da praia das nossas amarguras.

Sua Alteza o Vice-Rei foi generoso na atribuição de títulos. Um novo Duque surgiu, precisamente em Aveiro, na figura prestigiosa de D. Inês, um macongino que sempre demonstrou especiais predicados.

 

Mas houve que alargar a estrutura da organização tradicionalmente desorganizada. Por isso surgiram alguns sobas prontos a empunhar o "porrinho" e a fazer a chamada a algumas ceias onde o virá á vira não escapou.

E foi de mais longe que nos chegaram notícias da expansão do Reino; na mensagem que trouxe grande contentamento. Em Macau, às portas da China, um grupo de Maconginos liderado pelo Jorge Arrimar, levantou o copo, empanturrou-se de bacalhau e cantou o Hino. Repetia-se, por outros modos, a gesta dos Gamas. O nosso Vice-Rei - impante de orgulho - desfraldava, por sua vez, a bandeira de novos domínios, com a certeza de que se estenderão para além de 1999.

E agora? O que nos espera?

Observador menos perspicaz poderá pensar na extinção a prazo deste reino de sonho e fantasia, quando, um a um, a morte nos for da lei da vida libertando. Nada mais errado! Novos maconginos - juventude irrequieta e generosa, - aparecem nas nossas manifestações. São eles que irão con­tinuar a alimentar o reino com a sua fantasia, com à sua irreverência, com o espírito de sempre.

Mas ainda há um longo caminho a percorrer.

O problema das bolsas de estudo destinadas àqueles que se entregam à ciência, ainda agora ensaia os seus passos. E se em tempos idos as bolsas constituíam um suporte estético e criavam a imagem da nossa actividade, a verdade é que não podemos deixar de as vivificar com uma nova força. Com ou sem provas de acesso, com ou sem "números clausus", precisamos de as implementar com grande determinação, porque haverá sempre um macongino para for­mar, para educar, para transportar os conhecimentos científicos às gera­ções vindouras. É bem certo que já não dispomos da Feira de Gado da Huíla para fazer o leilão do bezerro, nem tão pouco nos sobram os Reais Paços para as noitadas de Fado onde se revelaram vozes bonitas e onde o Acácio Gomes "aprendeu" a tocar guitarra. A imaginação, a entrega de todos, o espírito de colaboração, as iniciativas que se irão multipli­cando, farão, por certo, o milagre para que tudo seja possível. Todos nós sabemos que no princípio Deus criou o Céu e a Terra!!!

D. Rodrigues Costa

Duque de Gargântua

 

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O REI DE MACONGE nas Festas da Senhora do Monte - Por João da Chela

joaodachelaJoão da Chela foi um ilustre escritor e jornalista, com vários livros publicados e artigos, crónicas e reportagens regulares em vários jornais de Angola, nomeadamente no "A Província de Angola" e no "Jornal da Huíla". Se bem que, ao que se saiba, não tenha estudado na Huíla, era pai do macongino Aníbal Guedes Pinto, que foi delegado da DTA em Sá da Bandeira, locutor do Rádio Clube da Huíla e Comandante da TAAG e da TAP.
Foi no "Jornal da Huíla" que João da Chela publicou esta crónica saborosa sobre o Rei de Maconge que aqui se transcreve

João da Chela :joao_da_chela_jornal

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Com a imponência e aparato dos cartazes sensacionais, capazes de fazerem pasmar a chama de um fósforo ou as orelhas de um coelho montês, veio também ter às nossas mãos uma cópia do Real Decreto que põe em vigor a assistência obrigatória dos maconginos e de toda a real parentela académica, às Festas de Nossa Senhora do Monte. Foi-nos remetida essa cópia pelo próprio Rei D. Caio, com um deferente cartão seu por si assinado, o que prova a honra e o merecimento em que tem a nossa amizade que já vem do tempo em que ele ainda usava bibe e muito democraticamente jogava a trolha com os “chicoronhos” parceiros que o igualavam na idade.

Esse Real Decreto é conhecido através do Rádio Clube. Mas façamos nós também uma pequena referência. Dom Caio gostará e a sua gigantesca e ilustre figura, que figura entre as mais gigantes, crescerá mais ainda. Em papel claro, simples, sem timbre e sem o selo da real estirpe, preto ou branco, o que denota a penúria que atinge todos os reis que caem no exílio como Do. Caio caiu, começa por indicar o sítio das armas reais – dois “porrinhos” cabeçudos, criados e instituídos pelo fundador da dinastia macongina que teve por primeiro ministro o conselheiro e gigante Cambuta de Capangombe.

Parece indeciso e sem grande confiança nos seus súbditos, ao começar o preâmbulo. Mas a coisa anima-se quando fala na “Casa Verde”, onde houve a primeira e animada reunião. Ali, à mesa lauta e redonda de quatro quinas, em que se juntaram todos os patrícios em confraternização dos Antigos Estudantes, Sua Majestade Macongina, que nunca teve a coragem de abdicar, achou por bem ler o seu Decreto, que  contem, entre outras coisas, o seguinte para a confusão deste ano:

“Os criadores de bois não só oferecerão estes animais, mas ainda os couros dos mesmos;

“Os de profissões libertadas concorrerão com vinhos genuínos das uvas huilanas das melhores castas, tais como laranja e ananás;

“A fiscalização assídua, com o cumprimento, à risca, das suas consequências, será exercida com pertinácia, audácia, perspicácia, contumácia e farmácia, não só pela tia Inácia, mais ainda pelos rapazes sagazes e capazes, desses mais abruptos, incorruptos, argutos e nada brutos, que chamarão ainda a si todas as receitas dos impostos das execuções finais”.

Foi nesta altura que a malta se levantou em enorme algazarra, alucinada e tumultuosa, acusando Sua Majestade Macongina de se ter mancomunado com essa casta de cábulas que foram seus antigos companheiros. – “Não! Não!... – gritava-se – Não vale, uns pagarem para outros só receberem! Haja moralidade”… - “Mas nós é que não vamos nisso!... – reclamaram os outros. – Então, estamos a ter o trabalho de cobrar e arrecadar, para as receitas irem ter às vossas carteiras? Era muito bonito, mas para vós vai a parte das despesas e já não é pouco…”

Os ânimos cresciam e engordavam e já havia deliberados propósitos de brandir cadeiras por uns, quando os outros ameaçavam fazer o mesmo. Quis D. Caio ter a audácia de intervir, ainda que a primeira cadeirada tivesse de ser apontada à sua real cabeça.

E, afoito,  procurou acalmar os ânimos dos maconginos, procurando manter a serenidade e a brandura dos reis antigos, teve esta solene e real tirada:

-- “Ordem e Obediência. Publique-se e republique-se o Decreto; cumpram todos os que ele contém, e com isso contem, que é como se nada contivesse; e fiquem todos contentes. Que “chatisse”! Eu ainda sou o Rei de Maconge!...”

 

Mas a desordem alegre, uma espécie de reinação dos que já viram passar muitos anos sobre o seu tempo de estudantes, continuou na pacífica Casa Verde. Os irrequietos rapazes, que lealmente acompanharam para longe o Rei de Maconge, contorceram-se, quase inconformados, arregalaram e amorteceram os olhos duas vezes, pensaram mais três vezes ainda e acabaram por emitir a sua conformação, não por vontade, claro, mas talvez por respeito. E o remédio foi ter de se cumprir tudo o que tal Decreto continha, posto em vigor com todo o rigor das antigas leis maconginas, que nem sempre cuidaram de dar a César o que é de César.

Todos de uma geração irrequieta e quase engraçada pelas reprovações contínuas nos exames, apesar da grande capa de misericórdia que o santo professor-reitor Dr. Ramalho Viegas lhes punha aos ombros, parece que os rapazes ganharam algum juízo cá fora. Acertaram, seguindo o exemplo do seu nobre e jovem companheiro D. Caio o mais destemperado, mas também o mais leal e mais aplicado dos alunos.

D. Caio Júlio César da Silveira, um ponto e um vê, trigésimo sexto rei da única dinastia macongina, parece que remonta no seu tronco real ao quadragésimo terceiro soberano de Serra ao Lado, cuja sede se conservou sempre em Maconge, dinastia que terá tido a sua fundação alguns milhares de anos antes de Portugal ter o seu primeiro rei.

Contudo, o faro manteve-se pela história além. Subida a Chela pelos madeirenses, criado o Liceu da Huíla e imortais, de há muito, “Os Lusíadas” nas escolas e no povo, o jovem D. Caio larga a sua real cubata e bota-se ao ensino civilizado na alta cidade que tomou o nome de Sá da Bandeira. Era pena ficar inculto um Rei e em Maconge não podia saber-se  quantos milhares de anos demoraria a instalação ali, de uma Universidade. Cursou D. Caio o “Diogo Cão”. Divertido, atraente, bom camarada, polido e sociável, custando a crer que tal perfeição de jovem saísse dos cerros e da noite da Chela, o régio estudante foi um modelo de aplicação. Avançou sempre em primeiro lugar entre todos; ao passo que os outros não passaram do sétimo ano, D. Caio arrancou vitoriosamente o décimo segundo ano do Liceu.

Pena seria ficar por aqui. Largou de vez os chacais de Maconge e foi meter-se entre os tubarões de Luanda. Ficou sendo um rei exilado, voluntariamente, não perdeu o seu poder nem o seu amor ao ninho, e o destino daquela precocidade foi amar sempre a sua terra, cujas belezas são a sua permanente fascinação.

O programa que organizou para as Festa do Monte deste ano, inclui uma Serenata nas escadas do Liceu que frequentou. Não haverá leitura de “As Macongíadas”, estâncias alegres de um poema em mil cantos à maneira de “Os Lusíadas”. Mas a cítara do luso épico cobrirá tudo. Será cantada a gruta, a Natércia e os naufrágios da Nova Epopeia, trazendo as guitarras, nas suas cordas apaixonadas, as saudades de Coimbra. Sim, as escadas são menos poéticas que o Mondego, onde as noites de luar neste mês não são tão frias e silentes como as nossas. Mas, como se trata de saudades e de exaltação do sentimento lusíada, a serenata percorrerá as encantadoras margens dos rios Mapunda e Mucúfi, que lhes patentearão, bem solenes e bem erectos na sua tristeza já negra, muitos e variados “Penedos da Saudade”…

João da Chela

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O LICEU DIOGO CÃO E OS ACONTECIMENTOS DE 1961 - Por D. Diamantino Pereira Monteiro
Finalistas_60-61
Todos os finalistas de 1960/1961
LiceuFinalistas3
Toda a turma da Alínea F) - Ciências

LiceuFinalistas2
O jantar de finalistas informal, sem familiares,
apenas com alguns colegas do 6º ano

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O baile mais sisudo da história
[Clique nas imagens para as ver aumentadas]

1961 é data marcante na história de Angola, qualquer que seja a perspectiva por que se olhe o massacre de 15 de Março e todos os acontecimentos subsequentes com ele relacionados. A dor, o medo e a incerteza passaram a marcar o ritmo da vida sobretudo nos primeiros meses, enquanto se não percebeu a verdadeira dimensão do conflito.
É claro que esse clima de incerteza se reflectiu directamente nas escolas e, por maioria de razão, nos dois Liceus Nacionais - Luanda e Sá da Bandeira. Desde logo, a visível debandada dos alunos, cujos pais, em grande parte funcionários públicos, buscaram um primeiro refúgio no Sudoeste Africano, África do Sul, Moçambique e na Metrópole. Na generalidade, verificou-se um antecipar de férias e de “licença graciosa”, na expectativa de que as coisas acalmassem e tudo voltasse à normalidade a curto prazo.

Os que ficaram, como eu, não tiveram outro remédio senão o de aprenderem a gerir as circunstâncias. Essas, por exemplo obrigavam a que os finalistas do Liceu que frequentavam a chamada Milícia da Mocidade Portuguesa e que, em consequência, tinham instrução pré-militar de manejo de armas de fogo, integrassem as milícias organizadas pelo governo do distrito e pela tropa, para patrulhamento contínuo dos arredores da cidade.

Diariamente, ao cair da noite, todos os homens, incluindo as poucas dezenas de finalistas e sextanistas do Liceu apresentavam-se junto à administração do concelho onde nos aguardavam graduados do exército e umas dezenas de Jeeps e Land Rovers requisitados a todos os serviços públicos da cidade.

Depois era um rodar constante pelos subúrbios da cidade adormecida, até ao raiar do dia, pouco antes das seis da manhã. Os estudantes integrados nas rondas eram, naturalmente, dispensados das aulas da manhã.

O aproveitamento escolar era nulo. E por isso foi bem recebida a medida decretada pelo Ministério do Ultramar, de somar dois valores às notas finais de todos os estudantes (e não só daqueles que participavam na vigilância nocturna). Note-se que não foram suficientes esses dois valores para alguns de nós, eu incluído, que ficámos a dever à cega severidade do Mendonça das Forças em Física e à assumida displicência do Bintóito a Matemática, o facto de termos de repetir a condição de “finalistas” no ano seguinte…

Mas no final desse ano lectivo de 1961, a nota marcante foi a anulação dos festejos dos finalistas. Pela primeira vez desde que começara a tradição, foi

 

O ÚNICO ANO EM QUE NÃO HOUVE BAILE DE FINALISTAS NO GINÁSIO DO LICEU.

 

O argumento para a suspensão da praxe foi o do clima de luto que se vivia pelas centenas de mortes nos massacres do Norte. Face à apreensão geral, foi naturalmente aceite a medida. A Academia resolveu, por isso, que os finalistas se reunissem num simples jantar de despedida de curso, sem a tradicional presença dos familiares e das autoridades da região. Na circunstância e porque o número de finalistas pouco ultrapassava as três dezenas, escolheu-se o salão da Pousada de Turismo, quase em frente ao Bispado, a caminho da Senhora do Monte.

As fotografias dão conta dessa quase triste e por isso histórica “despedida de finalistas” do Liceu Diogo Cão. Mesmo o arremedo de baile que culminou o jantar, não se revestiu da alegria normal, antes resultou na necessidade de comungarmos os nossos sentimentos e de nos confortarmos mutuamente.

Na fotografia de grupo contam-se 41 pessoas, incluindo o Reitor do Liceu e quatro dos professores. Ao todo: 36 estudantes. Nos anos anteriores esse número rondava a centena!

De qualquer o modo, não me é possível lembrar o nome de todos os finalistas. E por isso peço encarecidamente ajuda para completar o quadro:

Liceufinalistas 
[Clique na imagem para a ver com melhor definição]]

      1-Madalena Maria Vaz Pereira; 2 - Paradinha Xavier; 3 - (…); 4-João Santa Rita; 5 - Arminda Celorico;  6- (…);   7- Noémia Calado e Silva;  8- Fátima Neuza Antunes;  9-Prado Leitão (Reitor);  10- Lenita Reis;  11-Dionísio Abílio Dias de Sousa 12-  (…);  13-Beatriz Joyce de Jesus Tavares 14-Professora...;  15-Professor David;  16-  Professora...;  17-Professor Dr. Vasco Coutinho (Bintóito);  18-  (…);  19- Pedro Rodrigues  20-Adelaide Salgado;  21-Maria Helena Monteiro Agostinho;  22-Maria Clementina Rosado Rodrigues;  23- Elisa dos Santos Xavier;  24-Diamantino Pereira Monteiro;  25-Professor Eng. Mário Silva;  26-  (…);  27-Carlos Alberto Viegas Godinho;  28-Mário Aristóteles Nunes Correia;  29-Tozé Miranda 30-Orlando Amaro;  31-Luciano Melo;  32-Décio Rui Aguilar;  33-  (…);  34- (…Zé dos Calos...);  35-Rui Guedes;  36-(…);  37-  (…);  38-João Jaime Neto Brandão Lopes 39-  (…);   40-Amadeu Carreira de Almeida Marques Estaca;  41- (…)

Enviar achegas ou eventuais correcções para o email oficial

 

AS ESTÓRIAS DA HISTÓRIA  -  EPISÓDIOS DE JUVENTUDE
   







JOAQUIM SEABRA MARQUES PIRES

EDUARDO HOMEM

LUIS MANUEL SILVA

FERNANDO PERES

ANA PAULA LAVADO




1ª série


2ª série

Para além das Histórias de Maconge, chegou a altura de começar a registar as “estórias” da nossa malta. É que são episódios únicos que mais ninguém pode contar como nós, tal como as vivemos.

Este, suponho, é o local adequado para juntarmos essas histórias. Mais tarde, sabe-se lá se poderão projectar-se nos escaparates das livrarias…

Este punhado de histórias deliciosas, autênticas e reais, resulta da iniciativa do macongino Eduardo Homem, que se deu ao trabalho de compilar o que D. Seabra Marques Pires, Visconde do Rio-Capitão, escreveu de forma dispersa no site Sanzalangola. A estas Eduardo Homem juntou outras suas e de outros maconginos, nomeadamente de Luís Manuel Silva e Fernando Peres. Há ainda um poema brilhante de Ana Paula Lavado.

Mas estas histórias falam de muito mais gente, como protagonistas dos episódios. E relembra-se a constituição completa de algumas turmas do Liceu, com os nomes e os números dos alunos, tendo o Visconde do Rio Capitão optado por omitir as notas finais, para evitar melindres… Obrigado, Seabra!

Cada uma das histórias, numeradas pelo Eduardo Homem, tem um título que é de minha autoria e que apenas servirá para chamar a atenção do leitor mais apressado. Deixo aqui alguns desses títulos, como “isco” para a vossa curiosidade:

 

- O Hugo das Mulas – Da fuga do Tchivinguiro montado numa mula, às fugas do Internato dos Maristas.

- O “Velha” e a troca dos pontos no Hotel Metrópole

- Rebento do nosso Bambu transplantado para Moçambique…

- Expulsos dos Maristas e os bons polícias de Sá da Bandeira

- Relação do corpo docente e de funcionários do Liceu “Diogo Cão” no ano lectivo 1958/1959

- A estátua de Artur de Paiva com garrafão de 5 litros (palhete tinto de capacete)

- O Código de Honra, Mendonça das Forças e a permanente “buba” do Fortuna.

- O dia em que o Néné Miranda e o Eddie decretaram o boicote à Livraria Académica.

- Porque é que o Wenceslau se chama Bacalhau...

- O Elogio ao Pai Portugal

O Repórter do Reino 

 
OSVALDO GODINHO


SEABRA MARQUES PIRES


JORGE ALBERTO MARQUES PINTO

As séries anteriores das Estórias, tiveram o condão de despertar outros Maconginos que vão fazendo chegar episódios da sua/nossa juventude, igualmente tão saborosos e emocionantes como os anteriores.

Aqui as irei colocando em sequência, na esperança de que, mais tarde, seja possível publicar um "colectivo".

RR/


   
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